
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve a taxa básica de juros na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano — o menor nível desde setembro de 2022. O anúncio, feito nesta quarta-feira (17), veio em linha com as expectativas do mercado e foi aprovado por unanimidade pelos integrantes do comitê.
Esta foi a quinta reunião consecutiva em que o Fed deixou os juros inalterados. O encontro também marcou a estreia de Kevin Warsh no comando da autoridade monetária.
Indicado pelo presidente Donald Trump, ele tomou posse em 22 de maio e iniciou oficialmente seu mandato de quatro anos após uma cerimônia na Casa Branca (leia mais abaixo).
A guerra no Oriente Médio e a alta dos preços da energia continuaram entre as principais preocupações do Fed. Mas, diante de uma economia que segue aquecida e de uma inflação ainda acima da meta, os desafios do banco central americano vão além do conflito, incluindo pressões persistentes sobre os preços e questões ligadas à nova gestão de Warsh.
A política de juros nos EUA tem reflexos no Brasil. Com as taxas em nível historicamente elevado, cresce a pressão para que a Selic, taxa básica de juros brasileira, permaneça em patamar alto por mais tempo, além de gerar efeitos sobre o câmbio.
Esta é a 12ª decisão desde que Donald Trump assumiu como 47º presidente dos EUA, em 20 de janeiro de 2025. Desde a posse, houve três cortes de juros, em meio a um cenário econômico incerto, com conflitos geopolíticos e a guerra tarifária promovida pelo republicano.
O que disse o Fomc?
O Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) afirmou, em comunicado, que a economia americana continua crescendo em ritmo sólido, apesar do ambiente de incerteza elevado, em parte associado ao conflito no Oriente Médio.
Segundo o colegiado, os investimentos das empresas e os ganhos de produtividade seguem fortes, enquanto o mercado de trabalho permanece estável, com a geração de empregos acompanhando o crescimento da força de trabalho.
O comitê também destacou que a inflação continua acima da meta de 2% e atribuiu parte das pressões recentes ao aumento dos preços em alguns setores, especialmente o de energia.
“A inflação permanece elevada em relação à meta de 2% do Comitê, refletindo em parte choques de oferta que impulsionaram aumentos de preços em determinados setores, incluindo energia”, diz o comunicado.
Ao decidir, por unanimidade (12 votos a 0), manter os juros entre 3,5% e 3,75% ao ano, o Fomc reafirmou seu compromisso com os dois principais objetivos do Federal Reserve: controlar a inflação e preservar um mercado de trabalho forte.
As projeções atualizadas indicam uma mudança importante em relação ao cenário esperado até poucos meses atrás. Pelos cálculos dos dirigentes do Fed, a taxa básica de juros, mantida no atual intervalo desde dezembro, deverá subir 0,25 ponto percentual até o fim deste ano.
As estimativas para a inflação também foram revisadas para cima. A expectativa para o fim de 2026 passou de 2,7% para 3,6%.
Ainda assim, os dirigentes esperam uma desaceleração mais forte dos preços nos anos seguintes, o que permitiria que os juros retornassem ao nível atual até o fim de 2027 e recuassem um pouco mais em 2028. A inflação, por sua vez, é projetada em 2,3% em 2027, sem a necessidade de novas altas dos juros.
Entre as projeções divulgadas pelo Fed, um aspecto chamou a atenção: o chamado "gráfico de pontos" (dot plot, em inglês), que reúne as estimativas individuais dos dirigentes para os juros, contou com apenas 18 contribuições, embora o comitê seja formado por 19 integrantes.
Em entrevista coletiva após a reunião do Fomc, Warsh afirmou que o comunicado evitou indicar os próximos passos do banco central por considerar que esse tipo de sinalização não é apropriado diante do atual cenário econômico.
Sem antecipar qual poderá ser a trajetória dos juros nas próximas reuniões, o presidente do Fed reforçou que as decisões continuarão sendo tomadas com base nos dados mais recentes.
"Não posso dar nenhuma orientação futura sobre o que faremos a seguir. A boa notícia é que nos reuniremos novamente em seis semanas", disse.
Nova presidência do Fed
A troca de comando no Fed ocorre após meses de atritos entre Trump e o então presidente da instituição, Jerome Powell. Desde o início de seu segundo mandato, o republicano argumenta que juros elevados encarecem o crédito e prejudicam a economia.
Em entrevista à NBC News na última semana, porém, Trump adotou um tom diferente ao comentar o novo comando do banco central.
O republicano afirmou que quer que Warsh “faça o que quiser”, mas voltou a defender juros mais baixos e criticou a possibilidade de novas altas. Na visão do presidente, a economia americana continua forte, e encarecer o crédito seria uma forma de “punir o sucesso”.
No entanto, dados recentes da economia americana ajudam a explicar por que o Fed enfrenta uma tarefa mais complexa e por que cresce a percepção de que os juros terão de permanecer elevados por mais tempo.
Mercado de trabalho aquecido: a criação de 172 mil vagas em maio e a taxa de desemprego estável em 4,3% — ainda em níveis historicamente baixos — mostram que a economia continua gerando empregos. Ao mesmo tempo, os salários avançam cerca de 3,4% ao ano, sinalizando que a demanda por trabalhadores segue forte.
Pressão nos preços: a inflação voltou a ganhar força. O índice de preços ao consumidor (CPI), uma das principais medidas do custo de vida, acumula alta de 4,2% em 12 meses, o maior patamar em três anos. O movimento foi impulsionado principalmente pelo aumento dos preços da energia em meio ao conflito no Oriente Médio.
Inflação ainda distante da meta: mesmo ao excluir itens mais voláteis, como alimentos e energia, os indicadores seguem acima do objetivo de 2% perseguido pelo Fed. O núcleo do CPI está em 2,9%, enquanto o núcleo do PCE — índice de inflação preferido do banco central americano por refletir melhor os hábitos de consumo das famílias — permanece em torno de 3,3%.
Crescimento mais moderado: por outro lado, a atividade econômica dá sinais de perda de fôlego. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu a uma taxa anualizada de 1,6% no último trimestre, abaixo dos 2% projetados anteriormente e das expectativas do mercado, indicando desaceleração em relação aos períodos anteriores.