
Uma mulher de 42 anos, moradora de Belo Horizonte, segue internada desde dezembro em estado grave após apresentar complicações associadas ao uso de uma caneta emagrecedora comercializada de forma irregular.
De acordo com familiares, a auxiliar administrativa Kellen Oliveira Bretas Antunes utilizou o medicamento, trazido do Paraguai, sem orientação ou prescrição médica.
O quadro começou com fortes dores abdominais, que motivaram a internação. Com o passar dos dias, porém, o estado de saúde se agravou e passou a envolver alterações neurológicas.
A suspeita dos médicos é de que ela tenha desenvolvido uma síndrome capaz de comprometer a musculatura, os movimentos, a fala e o funcionamento de diferentes órgãos.
Especialistas ouvidos pelo g1 explicam que esse tipo de evolução não é incomum quando o produto usado não segue padrões farmacêuticos básicos. Em análises de canetas emagrecedoras vendidas fora da rede regular, especialistas inclusive já identificaram substâncias diferentes das que deveriam compor o medicamento.
Segundo a doutora em endocrinologia Maria Fernanda Barca, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), em outros casos, análises laboratoriais revelaram:
soluções com pureza muito abaixo do aceitável,
frascos sem esterilidade mínima,
insumos de origem desconhecida,
tentativas de imitar a concentração usada pela indústria sem qualquer precisão técnica, presença de sibutramina, proibida para uso injetável.
Muitos dos danos começam, segundo ela, na cadeia de produção: essas canetas são feitas em ambientes que não seguem normas de assepsia, com matérias-primas baratas e dificilmente rastreáveis. Os frascos superconcentrados, vendidos para múltiplos pacientes, ainda ampliam o risco de contaminação.
Endocrinologista do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Cohen, Clayton Macedo confirma a gravidade. Em testes independentes, diz, frascos vendidos como tirzepatida (o princípio ativo do Mounjaro) apresentaram purezas entre 7% e 14%, quando o medicamento real exige 99%.
“É outra substância. É um composto instável. Não se comporta como tirzepatida e não tem como gerar o efeito terapêutico esperado”, explica.