
Em meio à guerra no Irã, um contraste chamou a atenção do repórter Caco Barcellos: a imagem de um míssil exaltado como símbolo de patriotismo. A imagem resume o clima no país, onde manifestações de afeto e patriotismo convivem com a escalada militar e os bombardeios constantes (veja no vídeo, por volta do minuto 15:23).
Em reportagem exclusiva do Fantástico deste domingo (12), Barcellos e o repórter Thiago Jock mostram os bastidores de uma viagem rara ao país em guerra.
Eles conseguiram entrar no Irã após uma checagem de duas horas na fronteira, algo que repórteres do mundo inteiro já tentaram, continuam tentando e não conseguiram. Apenas três equipes estrangeiras estão no país: a TV Globo, uma russa e uma britânica.
Foram seis dias em Teerã, a capital, registrando os impactos do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e o regime iraniano.
O cenário é de destruição e tensão constante. "O que mais nos impressiona nesta guerra é que o perigo é invisível, vem de cima", relata Barcellos. "Não se ouve nem o barulho dos aviões que lançam os mísseis."
A equipe acompanhou funerais de militares mortos em ataques e encontrou uma população dividida entre o luto, o nacionalismo e a tentativa de manter a rotina.
Entre os mortos, um general da Marinha iraniana, durante ataque a uma embarcação que ele comandava no Estreito de Ormuz. O corpo foi transportado até a capital para o funeral. Em meio ao cortejo, uma jovem criticou duramente os Estados Unidos: "Esse governo americano é o pior de todos os tempos."
Os ataques atingem diferentes alvos. Em áreas residenciais, um único míssil destruiu casas e deixou dezenas de mortos. Em um dos locais visitados, 25 pessoas morreram. "É um conjunto de prédios residenciais que virou isso: escombros", descreve o repórter.
Uma ponte em construção também foi atingida duas vezes. No segundo ataque, oito trabalhadores morreram e 95 ficaram feridos. Entre as vítimas estava Leila Maquelli, irmã de dois operários, que havia ido até a obra levar almoço para eles. Ela foi atingida, levada ao hospital em estado grave e não resistiu.
Hospitais e centros de saúde também foram atingidos. Médicos protestaram contra os bombardeios. "Não se pode bombardear infraestruturas de saúde", afirmou uma médica durante manifestação.
Segundo profissionais locais, mais de 300 unidades foram afetadas durante o conflito, incluindo 18 instalações do Crescente Vermelho. A Organização Mundial da Saúde confirmou pelo menos 23 ataques a centros de saúde.
A equipe também visitou universidades atacadas e áreas onde cientistas ligados ao programa nuclear foram mortos. Ao todo, 13 cientistas já foram mortos em ataques semelhantes.
Autoridades ocidentais acusam o Irã de desenvolver armas atômicas, o que é negado pelo governo iraniano, que afirma usar o programa apenas para geração de energia.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmaeil Baghaei, rebateu as críticas: "Somos vítimas de uma campanha sofisticada de demonização nas últimas cinco décadas. Não somos perfeitos, mas você consegue me mostrar algum país que seja perfeito na questão dos direitos humanos?"