
Quanto vale viver o sonho? Desde criança, a lateral Antônia Silva sempre soube que queria jogar futebol. A alegria em jogar bola foi reconhecida pela família, a qual teve apoio incondicional. Naquela brincadeira de criança, ela correu atrás daquilo que sempre amou e herdou de seu pai: jogar futebol. Das quadras de Riacho de Santana, interior do Rio Grande do Norte, Antônia chegou aos principais gramados do mundo.
Hoje, medalhista olímpica e vencedora da Copa América pela Seleção Brasileira, além de defender as cores do Real Madrid, da Espanha, “Tonha” alcançou muito dos seus sonhos, até mesmo outros que nunca imaginou. Além de realizar o desejo de criança, hoje, Antônia é a referência e inspiração da nova geração.
Em entrevista exclusiva à TRIBUNA DO NORTE, a defensora potiguar falou sobre o início da carreira, o processo de mudança do futsal ao futebol, as conquistas vestindo a Amarelinha, as expectativas para a próxima temporada pelo clube espanhol e pela Seleção Feminina, e analisou o cenário do futebol feminino no Brasil e no Rio Grande do Norte.
Os primeiros passos foram nas quadras de futsal de Riacho de Santana, onde os sonhos de Antônia começaram. Ela se destacou inicialmente nos Jogos Escolares, sendo bicampeã invicta em 2007 e 2008. As conquistas fizeram com que recebesse uma proposta para estudar e jogar por uma escola em Natal. Durante esse período, a jogadora também atuou pela equipe de futsal feminino do ABC. E tudo isso foi possível graças ao apoio da família.
“Tive uma família que sempre me apoiou e sempre esteve comigo. Quando eles perceberam esse talento, já me incentivaram. Comecei na escola, através de Jogos Escolares, jogando futsal. Então tinha desde sempre o apoio da minha família também. Dentro da minha família tinha a paixão pelo esporte. Meu pai foi jogador, então isso foi aflorando dentro de mim. Quando eu percebi isso, o sonho cada vez mais ficou claro”, conta a jogadora.
Aos 15 anos, Antônia se mudou para São Paulo. Lá, ela seguiu atuando nas quadras, mas logo trocou as chuteiras, quando assinou com a Ponte Preta/SP em 2017 para a disputa da Série A1 do Campeonato Brasileiro Feminino. No mesmo ano, “Tonha” recebeu a primeira convocação para a Seleção Brasileira. A estreia com a Amarelinha seria em 2020.
De lá para cá, Antônia defendeu as camisas de Corinthians Audax/SP, Iranduba/AM e São Paulo/SP. Em 2019, acertou sua transferência para a Espanha, onde atuou por Madrid CFF e Levante, antes de chegar ao Real Madrid na última temporada.
“Hoje eu posso dizer que já consegui estar no meu melhor pós-olimpíadas. Porque eu tive uma lesão (fratura na fíbula) e logo depois acabei machucando de novo e dei mais uma ‘quebradinha’ no ritmo. Mas no final da temporada eu fiquei bem, me senti muito melhor e agora me sinto totalmente recuperada”, pontuou Silva. No primeiro ano pelo time merengue, a lateral atuou em 27 jogos, sendo 19 como titular.
Olimpíadas de Paris
Durante a reta final do jogo da Seleção Brasileira contra a Espanha, pela última rodada da fase de grupos dos Jogos Olímpicos de Paris, uma cena chamou a atenção de todos: mesmo com dores e mancando, Antônia se esforçava para seguir em campo e ajudar a equipe à avançar de fase. O Brasil estava com uma jogadora a menos por conta da expulsão de Marta no primeiro tempo, além de não poder mais realizar substituições.
Apesar do esforço, ela não resistiu e deixou o campo às lágrimas. Com um roteiro dramático, a Seleção se classificou para às quartas de final após a derrota da Austrália para os Estados Unidos, como uma das duas melhores terceiras colocadas. Os exames constataram uma fratura na fíbula da perna esquerda e a lateral acabou de fora do restante das Olimpíadas. “Sabíamos que na pior das hipóteses não poderíamos perder de muitos gols, porque mesmo assim a gente classificaria”, revela.
O choro de frustração por desfalcar o Brasil na reta final se transformou em felicidade diante da campanha histórica com a medalha de prata em Paris. “Naquele momento, só ao ver isso, que não poderíamos perder de muitos gols, eu tinha que me sacrificar, em nenhum momento eu achei que tivesse a lesão de fato, em nenhum momento achei que fosse o osso, achei que fosse algo muscular”, conta a lateral.
Copa América
Antônia está entre as 23 jogadoras convocadas pelo técnico Arthur Elias para defender a Seleção Brasileira na Copa América Feminina, que acontece entre julho e agosto, no Equador. Será a segunda vez que a potiguar disputa a competição. Em 2022, ela integrou o grupo que conquistou o oitavo título continental da Seleção. “É um sonho de qualquer atleta poder estar em uma Copa América. Já tive esse sonho realizado, que foi ser campeã com a Seleção. Vou em busca de mais um e vou me preparando para isso. Me sinto bem, se tiver a oportunidade, com certeza eu vou agarrar com unhas e dentes”, revela a jogadora. Ela avalia as colombianas como as principais rivais na competição e revela estar confiante por mais uma conquista.
Antônia revelou que torcia bastante para que Natal fosse uma das sedes do torneio da FIFA. Mas, infelizmente, isso não ocorreu. “Seria muito legal, porque eu sei que o nosso povo gosta de futebol e abraçar isso aí perfeitamente”, descreveu a jogadora. Apesar disso, o foco continua sendo conquistar a primeira estrela.
Ao analisar o cenário atual da categoria, Antônia afirmou que o Estado possui muito talento, mas que falta incentivo e investimento. “Poderia ser muito melhor. Eu gostaria de ver o RN com mais jogadoras, com incentivo maior ao futebol. Eu tenho certeza que a gente tem muito talento por aí e falta mesmo realmente esse incentivo de a gente colocar mais estrutura para as meninas, para poder aparecer mais estrelas, que não fique só as atletas que têm, como eu que represento, a Priscila, mas que venham muito mais, porque eu tenho certeza que aqui tem inúmeros talentos”, descreveu.
Refletindo sobre isso, Antônia também falou que é importante que o RN tenha uma categoria de base para o futebol feminino, algo que já é realidade em outros centros do Brasil, como o estado de São Paulo.