
O aumento das notificações de pancreatite associadas ao uso indevido de medicamentos agonistas do receptor GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, levou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a emitir um alerta para ressaltar os riscos de tal prática. O receptor em questão inclui a dulaglutida, a liraglutida, a semaglutida e a tirzepatida. Especialistas ouvidos pela TRIBUNA DO NORTE avaliam que a utilização desse tipo de medicamento é segura, desde que realizada sob orientação médica adequada.
Já de início, a gastroenterologista e hepatologista Auzelivia Rego alerta: o mais importante é não demonizar nem banalizar. “São medicamentos eficazes e seguros quando usados com orientação médica”, diz. Segundo a especialista, apesar dos riscos potenciais existirem, eles são considerados baixos quando essas medicações são usadas com indicação adequada e acompanhamento médico.
“A obesidade é uma doença crônica e séria, e medicamentos como a semaglutida (Ozempic) e a tirzepatida (Mounjaro) representam avanços importantes no tratamento dessa condição. O fundamental é que o uso seja individualizado, seguro e sobretudo supervisionado”, afirma a médica, que atua no Hospital Universitário Onofre Lopes (Huol). A endocrinologista Marília Farache reforça que a primeira orientação é procurar um médico para o uso adequado.
Ela lembra que, desde o primeiro análogo de GLP-1, as chances de pancreatite aguda já constam em bula. “Então, o risco não é bem uma novidade, embora ele seja considerado raro. A Anvisa precisa agora investigar se realmente há uma associação direta entre o uso das canetas e a doença”, pontua Marília. Segundo a Anvisa, recentemente a autoridade reguladora do Reino Unido (MHRA) informou que registrou, entre 2007 e outubro de 2025, 1.296 notificações de pancreatite relacionadas aos usuários desses medicamentos, incluindo 19 óbitos.
No Brasil, de 2020 até 7 de dezembro de 2025, houve o registro de 145 notificações de suspeitas de eventos adversos e seis suspeitas de casos com desfecho de óbito. A Anvisa reforçou que esses medicamentos devem ser utilizados exclusivamente conforme as indicações aprovadas em bula e sob prescrição e acompanhamento de profissional habilitado. Segundo a Agência, o devido monitoramento médico é motivado justamente pelo risco de eventos adversos graves, como pancreatite aguda, que podem incluir formas necrotizantes e fatais.
“Apesar do alerta, não houve mudança na relação de risco e eficácia dessas substâncias. Ou seja, os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e constantes da bula”, destacou a Anvisa. Segundo recomendação da Agência, os usuários desses medicamentos devem procurar atendimento médico imediato em caso de dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.