
Quando Israel e Hamas concordaram com um cessar-fogo na Faixa de Gaza, há um mês, Mona al-Harazeen lembra não ter conseguido conter o choro.
Só pensava no filho Yazan, morto, segundo ela, em um bombardeio nos primeiros meses da guerra, aos 17 anos.
"Durante a guerra, não tivemos tempo de ficar tristes. Eu não tive tempo de viver o luto", explica a mulher de 36 anos, que trabalhava no setor administrativo da companhia elétrica local. "Quando a guerra acaba, a dor e a tristeza voltam."
Falando por telefone à BBC, ela diz que a primeira coisa que fez foi retornar ao norte da Faixa de Gaza, onde viveu a maior parte da vida. Tinha fugido de bombardeios intensos semanas antes de o cessar-fogo entrar em vigor, em outubro.
Não era a primeira vez que al-Harazeen fazia esse percurso. Em janeiro de 2025, quando um cessar-fogo anterior foi firmado, ela também caminhou do sul ao norte.
Na ocasião, carregava o corpo de Yazan, que havia retirado dos escombros onde estava preso havia quase um ano. Chorando, explica que queria dar ao filho um enterro digno.
Desta vez, ela foi de carro. O trajeto, que antes da guerra levaria 30 minutos, durou cerca de três horas, em meio a estradas destruídas e engarrafamentos causados pelo grande número de pessoas retornando ao norte.
Desta vez, ela foi de carro. O trajeto, que antes da guerra levaria 30 minutos, durou cerca de três horas, em meio a estradas destruídas e engarrafamentos causados pelo grande número de pessoas retornando ao norte.
Ao cruzar o vale com vista para a Cidade de Gaza, al-Harazeen diz ter ficado aterrorizada. "Até onde eu podia ver, só havia espaços vazios. Era uma cena horrível. O chão estava coberto de destroços, como se tivesse engolido todos os prédios."
Ela conta que o horizonte mudou completamente: edifícios de até 13 andares desapareceram.
"Foi solitário e assustador. Não consigo descrever a sensação. Só chorei", diz. Ela já sabia que sua casa, onde morou por 20 anos, fora destruída em 2024. Apesar disso, quer permanecer na cidade, "porque é o meu lar". Encontrou um apartamento de três cômodos para alugar a dez minutos de carro.
É um dos poucos disponíveis e, segundo ela, custa caro. Só consegue pagar dividindo o aluguel com a mãe, duas irmãs e suas famílias. Não sabe por quanto tempo vão conseguir manter o arranjo.
Ela afirma não ter recebido ajuda nem doações de alimentos. Diz que alguns produtos voltaram a aparecer, mas com preços "absurdos".
Antes da guerra, 1kg de banana custava cerca de três shekels (R$ 5,40). Agora, está em torno de 20 shekels (R$ 36). Um pacote de pão pita, que custava sete ou oito shekels (R$ 15), hoje chega a 60 shekels (R$ 108).
Ela ainda não consegue comprar ovos e conta que muitas famílias cozinham em fogueiras, por falta de gás.
"Acendemos fogo sobre placas de metal, em cilindros grandes, nas varandas, em banheiros desativados ou perto das janelas, para ferver água e esquentar a comida."
"Como não temos móveis, sentamos em cobertores e almofadas no chão", acrescenta.
Ela diz que os habitantes de Gaza não se sentem seguros e duvidam da estabilidade do cessar-fogo. "Ainda ouvimos tiros, foguetes e bombardeios. Tenho muito medo."
Mesmo assim, dorme um pouco mais tranquila ao saber que os outros dois filhos, Mohammad, 16, e Bashar, 12, estão relativamente protegidos.
O futuro, para ela, é sombrio: "Não temos futuro... Gaza acabou."
"Gostaria, nem que fosse por um dia, de voltar à minha casa, tomar banho no meu banheiro, dormir na minha cama, pentear o cabelo diante do espelho, vestir roupas limpas, passar meu perfume. Tenho saudade das coisas simples que fazia e já não posso fazer."