
Ponto mais distante do litoral brasileiro, a Ilha de Trindade já chegou a ter sua vegetação destruída por causa da introdução de cabras no local. Quase 30 anos após o extermínio desses animais, a ilha ainda se recupera do estrago ambiental, mas hoje a paisagem já está diferente: a área verde ressurgiu sozinha e sem intervenção humana.
Em 2014, um estudo piloto passou a monitorar a área de floresta que havia sido degradada na ilha. O grupo acompanhou desde a "paisagem desértica" que o local tinha virado com a presença das cabras, até a volta das áreas verdes, onde durante alguns anos só era possível encontrar pedras.
Em 2023, a pesquisadora do Laboratório de Fitogeografia Insular e Montana do Museu Nacional (UFRJ), Márcia Gonçalves, passou a integrar a equipe. A partir daí, os pesquisadores tentaram responder algumas perguntas importantes para entender a dinâmica da regeneração florestal no local.
A Ilha da Trindade fica a 1.160 quilômetros da costa, e é uma Área de Proteção Ambiental (APA). O acesso é controlado pela Marinha. O local abriga até 46 pessoas, entre militares e pesquisadores, que ficam períodos de até 4 meses. Para chegar à ilha, são 4 dias de viagem em um navio de guerra da Marinha.
"Nós passamos a medir a evolução da floresta. Reunimos imagens e dados de expedições anteriores, com marcação de pontos de vegetação onde sabíamos o que havia e o que não havia, o total de cobertura. Com imagens e sensoriamento remoto, conseguimos remontar o cenário da ilha nesses últimos 30 anos", apontou Márcia.
Márcia apontou que, com as análises, foi possível constatar que, com o passar dos anos, algumas espécies de plantas que só existiam na ilha foram totalmente dizimadas.
As áreas verdes só eram encontradas nos pontos mais altos de Trindade, como na floresta de samambaias gigantes, em que era mais difícil a chegada das cabras.
"Algumas espécies endêmicas de Trindade e ameaçadas de extinção chegaram a ter menos de 10 indivíduos e hoje conseguiram chegar em uma população de 100 indivíduos", destacou a pesquisadora.
Os pesquisadores destacaram que em comparação a quando a ilha tinha menos de 5% de vegetação, o avanço da área verde foi de 1.468%, o equivalente a 65 hectares. Já a vegetação rasteira se expandiu em 325 hectares, um aumento de 319%.
A projeção é de que atualmente a vegetação cubra em torno de 15% da antiga área verde.
"É surpreendente a resiliência do ambiente de uma ilha, que costuma ser muito mais sensível, apresentar uma capacidade de regeneração sem interferência humana. Nos mostra que as espécies exóticas precisam ser tratadas com a devida atenção, uma vez que são grandes causadoras de desequilíbrio ecológico", pontuou.
O estudo vai seguir em andamento e fazer a projeção para a cobertura florestal em 2125.
A pesquisadora esteve dez vezes na ilha desde o início de 2023 e disse que, mesmo em um curto período de tempo, percebeu o trabalho da natureza. "Mesmo nesses três anos foi possível perceber a diferença de cobertura, quando a gente olha para fotos mais antigas então, é muita diferença".
O resultado dessa pesquisa foi publicado em julho de 2025 no Journal of Vegetation Science, mostrando todo esse avanço natural da natureza na ilha, com o título "From Disturbance to Recovery: Unveiling the Role of Goats and Ecological Drivers on Vegetation Dynamics of Trindade Island, South Atlantic, Brazil" (“Da Perturbação à Recuperação: Desvendando o Papel das Cabras e dos Fatores Ecológicos na Dinâmica da Vegetação da Ilha da Trindade, Atlântico Sul, Brasil”).
Também participaram das pesquisas Márcia Gonçalves, Felipe Zuñe, Ruy José Válka Alves e Nílber Gonçalves da Silva.