
A participação de Javier Milei no evento de confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, gerou, segundo a imprensa argentina, a "maior crise diplomática do último meio século entre a Argentina e o Brasil".
Em um artigo de opinião publicado no jornal "La Nación", o jornalista Claudio Jacquelin afirmou ainda que o governo Milei já deixou claro "que não haverá pedido de desculpas por parte" do embaixador argentino em Brasília e "muito menos" do presidente.
Em um discurso inflamado de quase meia hora no sábado (25) em São Paulo, Javier Milei chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de "lixo careca" e criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e as suas políticas sociais.
Depois das declarações, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para "transmitir a repulsa" do governo brasileiro em relação aos comentários. O Itamaraty também chamou o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, para prestar esclarecimentos ao Itamaraty sobre a relação entre os dois países.
"A opinião é unânime: dezenas de diplomatas, ex-funcionários e especialistas em relações internacionais, tanto da ativa quanto aposentados, de ambos os países, não têm dúvidas de que a maior crise diplomática do último meio século entre Argentina e Brasil acaba de ser desencadeada", diz o artigo no La Nación.
"Dada a profundidade e a continuidade do conflito, fontes do Ministério das Relações Exteriores do Brasil esclareceram prontamente que nenhuma das medidas mais extremas está sendo considerada, embora o governo argentino já tenha deixado claro que não haverá pedido de desculpas do embaixador Raimondi, muito menos do presidente".
Ainda segundo o artigo, Javier Milei tem cometido "danos autoinfligidos, a si mesmo e ao país" constantemente, sendo o conflito com o Brasil, o maior país do hemisfério sul e principal parceiro comercial da Argentina, o mais recente.
Em uma outra reportagem sobre o caso na imprensa argentina, o jornal "Clarín" falou em um "conflito diplomático" gerado por Milei. Segundo o meio de comunicação, o governo brasileiro ainda estaria avaliando outras medidas de retaliação às falas do presidente argentino.
"Uma crise como esta, com insultos dirigidos a um chefe de Estado em seu próprio país, como os que Milei proferiu contra Lula no sábado no Brasil, é inédita na história democrática", diz o Clarín.
O que aconteceu?
Javier Milei fez as declarações que causaram a crise diplomática durante a confirmação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência, em um evento realizado em São Paulo no sábado.
Em um discurso inflamado de quase meia hora, o presidente argentino chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de "lixo careca", por ter negado pedido de visita a Jair Bolsonaro (PL), em prisão domiciliar.
Na última semana, a defesa do ex-presidente pediu autorização ao ministro, que é relator do caso, para o encontro com o argentino. Moraes negou a solicitação. Após enaltecer suas políticas econômicas na Argentina, Milei também criticou o socialismo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e as suas políticas sociais.
"Esse é o método que tem operado em toda a região: causar desequilíbrio econômico com o objetivo de 'comprar' votos para não perder o poder nas eleições seguintes", afirmou.
Milei, que tenta se posicionar como o líder da direita na América Latina, associou a candidatura de Flávio a uma "transformação política em curso" na região. Segundo ele, países da América Latina estão se alinhando à direita e abandonando a esquerda, movimento ao qual o Brasil pode se juntar com a eventual eleição de Flávio.
Durante o discurso em espanhol, parte dos correligionários de Bolsonaro que ocupavam o auditório no estádio do Pacaembu deixou o local.
Além de participar do evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, Javier Milei também foi recebido pelo governador de São Paulo e pré-candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas (Republicanos), no Palácio dos Bandeirantes.
O presidente argentino recebeu a Ordem do Ipiranga, a mais alta honraria concedida pelo Estado de São Paulo.
Em uma espécie de turnê pela América Latina, Milei seguirá, depois do Brasil, para a posse de Keiko Fujimori no Peru. Em seguida, irá para o Equador, onde deve realizar conversas com o presidente, também conservador, Daniel Noboa, segundo a Reuters.
Na sequência, o argentino visitará a Colômbia para a posse de Abelardo de la Espriella, um outsider da direita radical que acaba de vencer as eleições presidenciais no país.