Mundo
518626e0-3f17-11f1-80a9-03674e4a073c.png

O pequeno príncipe Benson está doente.

Seu pai é o rei Micanor, autoproclamado último monarca do Caribe. Ele é o senhor dos cais de Porto Príncipe, "senhor da guerra" do bairro de Wharf Jérémie e da Viv Ansanm, a confederação de facções criminosas que controla a capital do Haiti.

Ele está certo de ter descoberto o motivo. Existem na área homens-lobos, uma espécie de feiticeiros anciãos.

Eles têm o poder de se transfigurar em animais para atacar à noite e uma capacidade especial de fazer adoecer e matar crianças.
 
O rei decide, então, que, para salvar seu filho, suas hostes precisam sair à caça desses feiticeiros.

Sébastien é um homem forte e rústico de 32 anos. Em uma das casas, ele está debaixo da cama da sua mãe e observa dois homens a levarem embora.

Em outra, a avó de Evelyn diz: "Que ninguém fale nada. Escondam-se, todos." A anciã abre a porta e é raptada.

O avô de Sheila também é levado embora. Quando ela sai para averiguar sobre seu paradeiro, o ancião já está morto.

Manú também procura seus pais, que não atendem o telefone. No dia seguinte, ele descobre que seu pai foi desmembrado a golpes de facão.

Os bandidos de Micanor matam ainda o tio e o primo de Dustin. Ele conta a história com dois buracos de bala no corpo.

O príncipe Benson Altes morre na madrugada de 7 de dezembro de 2024. Ele tinha seis anos.

Durante seis dias, seu pai tira a vida de 207 pessoas. A maioria tinha mais de 60 anos. Ele os corta com facão, faz os corpos desaparecerem com fogo ou os joga no fundo do mar.

A busca por sobreviventes

No final de fevereiro de 2025, três meses depois do massacre em Porto Príncipe, consigo agendar uma reunião com a advogada Rosie Auguste Ducéna, chefe da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH, na sigla em francês). Mas chegar até lá é complicado.

A capital haitiana é a cidade mais violenta do país mais pobre e violento do continente americano. E 90% de Porto Príncipe está, há mais de um ano, sob o controle da Viv Ansanm, a maior confederação de gangues criminosas já vista na região.

Desde 29 de fevereiro de 2024, os bandidos tomaram posse de um bairro atrás do outro, queimando delegacias de polícia, estações de rádio locais, escolas, edifícios governamentais, cemitérios, estradas... Eles devastaram a cidade.

Os 10% que resistem à ofensiva são defendidos pelo pouco que resta do Estado haitiano, uma missão internacional comandada pelo Quênia, civis e pelos homens comandados por pessoas como o ex-policial Samuel Joasil, o mais conhecido de todos.

Estas brigadas montam barricadas quase todos os dias, colocam carros queimados, portões improvisados, cercas de arame farpado ou fogo em pneus para impedir a entrada dos bandidos e fazer com que eles, se conseguirem entrar, se movimentem com lentidão.

Assim, eles poderão caçá-los, matá-los e, em muitos casos, queimá-los.

Converso por telefone com Rosie Auguste desde a minha chegada a Porto Príncipe, no final de fevereiro de 2025. Mas é apenas em meados de março que consigo finalmente me sentar em frente a ela, no seu escritório.
 

"Não sei, ninguém sabe por que os bandidos fazem o que fazem", responde ela, quando pergunto o motivo do massacre em Wharf Jérémie.
 
Rosie Auguste é uma das maiores especialistas nas gangues e na violência de Porto Príncipe. Ela acredita que esta é uma forma de pressão para fazer com que a cidade caia com mais rapidez.
 
"Terroristas", segundo ela.
Ela também considera que os senhores da guerra elaboram a estratégia, mas não controlam as hostes de adolescentes que, embriagados pela adrenalina e pelo poder, acabam assolando a população de forma arrepiante. E acrescenta que os anos vivendo entre a violência deformam esses meninos.
Mas, como os demais especialistas, ela acredita, suspeita, intui, mas não sabe ao certo.
Rosie Auguste está visivelmente perturbada. Ela chama os bandidos da Viv Ansanm de covardes. Diz que eles atacam a população antes do governo.
"Eles sabem onde está o primeiro-ministro, onde moram os funcionários, mas preferem atacar mulheres e crianças desarmadas", ela conta, com a testa franzida. "Fazem violações em massa em frente a todo mundo e matam bebês."
Ela documenta e denuncia há anos, não apenas as barbáries das gangues. Ela também acusa o Estado haitiano de passividade, permissividade e conluio.
Por isso, Rosie Auguste acredita que sua vida esteja em risco. Ela não seria a primeira pessoa assassinada por documentar esta situação.
Tento entrevistar sobreviventes do massacre desde a minha chegada. Mas um jornalista local me diz que é impossível.
Ele conta que não se pode entrar em Wharf Jérémie porque o rei Micanor ficou paranoico e levou seus homens com ele.
 
O jornalista também afirma que os sobreviventes não podem sair do bairro. Micanor montou barreiras que controlam a saída das pessoas e retêm os celulares dos moradores. E os que conseguiram fugir para outros bairros ou para campos de refugiados improvisados correriam sérios riscos.
Peço a Rosie Auguste e ela promete tentar, mas destaca que, para eles, movimentar-se pela cidade seria quase um suicídio. Ela me pede para regressar no início de abril de 2025.
Nesta segunda entrevista, chego ao seu escritório de moto com Ivander, meu guia local.
A cidade está em chamas neste dia. A Viv Ansanm atacou as proximidades da fortaleza à noite e os tiros continuam sendo ouvidos. A brigada do comandante Samuel Joasil está nas ruas, com suas armas de fogo.
Rosie Auguste explica que a devastação da cidade começou com o assassinato do então-presidente do Haiti Jovenel Moïse (1968-2021). Ela conta o trabalho de formiga que sua equipe precisou fazer, arriscando a própria vida, para preparar o relatório sobre o massacre de Wharf Jérémie.
No final da nossa conversa, ela entrega um documento muito detalhado, com mais de 120 testemunhos. E me pergunta: "Onde você quer fazer as entrevistas?"
Frente ao meu assombro, ela abre uma porta e me mostra cinco pessoas sentadas em um banco, com olhar assustado.
 
Em um ato insólito de valentia, eles cruzaram uma cidade em guerra, atravessando barricadas, fogo e balas. Eles se arriscaram a ter a mesma sorte dos seus familiares, para me contar como eles morreram e evitar que sua história termine no mesmo lugar dos seus corpos — ou seja, no fundo do mar do Caribe.
No final das entrevistas, todos afirmam que seguem em contato com os seus, dizem falar com eles em sonhos e observá-los morando em casa, cuidando dos seus filhos, cozinhando sua comida e fugindo com eles pela cidade.
Seus testemunhos, um relatório da rede de organizações locais e outro das Nações Unidas são a base desta reconstrução do ocorrido entre 6 e 11 de dezembro de 2024, quando o rei Micanor perpetrou o maior massacre cometido por uma gangue criminosa no continente americano no século 21.

Foi naqueles dias que os sobreviventes começaram a sonhar.

O rei assassino e a maldição dos anciãos

Na manhã de 6 de dezembro de 2024, Evelyn e sua família ouvem motos, homens falando alto e batidas na porta. Da rua, eles perguntam pela sua avó.

"Escondam-se e façam silêncio", pede a avó aos seus parentes, enquanto abre a porta.
 
Um dos homens entra com uma pistola e outro com um facão. Eles a levam em uma das motos.
Aquela foi a última vez em que Evelyn viu a avó com vida.

No fundo do bairro de Wharf Jérémie, perto do mar, já se ouvem tiros. Ninguém da casa se atreve a sair.

Na manhã seguinte, Evelyn e suas irmãs, em um ato de grande temeridade, se esgueiram até Nan Mangue, um pequeno banco de areia ao lado do porto de Wharf Jérémie. Ali, em meio a um grande quebra-cabeça de sangue, dividida pelo facão, elas encontram sua avó.

Há alguns dias, o filho de seis anos do rei Micanor, Benson Altes, tem febre. Nenhum dos meus informantes sabe ao certo qual foi o motivo (uma doença relacionada aos pulmões ou ao estômago), mas ele fica pior em alguns momentos.

Porto Príncipe perdeu para os bandidos quase todas as suas instalações de saúde, públicas e privadas. Nem as ambulâncias da ONG Médicos Sem Fronteiras conseguem chegar aos domínios do rei Micanor, onde foram atacadas a balas em mais de uma ocasião.
 
Frente ao mal-estar do filho, Micanor chama seu hougan, seu sacerdote vodu pessoal, para salvá-lo.

O sacerdote afirma que Benson está doente por obra do vodu. Segundo ele, trata-se de uma espécie de feitiço lançado por um loup-garou — um homem-lobo, uma espécie de feiticeiro muito temida no Haiti desde a época da colonização.

O sacerdote anônimo (nenhuma fonte ou relatório registra seu nome) também afirma que os anciãos e anciãs do bairro são responsáveis não só pelo sofrimento do pequeno príncipe, como por outras mortes por doenças em Wharf Jérémie.

Para os membros das gangues, os anciãos se transformaram uma espécie de praga. E é assim que irão tratar deles.

Na manhã de 6 de dezembro de 2024, depois de uma longa reunião com o hougan, o rei Micanor decide pôr fim à maldição. Ele reúne suas tropas no quartel da gangue, conhecido como Centro de Treinamento, e manda que sejam trazidos para ali todos os anciãos do bairro.

Sébastien almoça com sua mãe naquele dia. Ele não recorda o que eles comeram, mas supõe que tenha sido arroz. Para muitos na cidade, este é praticamente o único alimento disponível.

O bairro está tenso, como sempre acontece em Porto Príncipe. Eles ouvem tiros, a música de fundo que acompanha a cidade nos últimos cinco anos.
 
Até que chegam os bandidos.

Jovens, eles chegam de moto, batem à porta e gritam do lado de fora que querem sua mãe. Ela diz a Sébastien que se esconda; ela não pede, mas sim ordena.

Sébastien é grande, tem feições fortes, voz grave e braços largos. Seu pescoço parece o tronco de uma árvore forte e os botões de cima da camisa se esforçam como podem para não sair em disparada a cada respiração dele.

Mas, no dia 6 de dezembro de 2024, este homenzarrão se enfia como pode debaixo da cama da sua mãe e se cobre com suas mantas.

Ele acredita que eles estão vindo para roubar, já que sua mãe e ele são comerciantes e mantêm dinheiro vivo.

Como o rei Micanor é seu vizinho e eles o conhecem há quase duas décadas, ele não imagina que irão matar ninguém do bairro. Talvez sua mãe, sim, e, por isso, ela manda que ele se esconda.

Sébastien observa do seu esconderijo que dois rapazes a levam e a fazem subir em uma moto. E, horas depois, ela fará parte do quebra-cabeça humano que também inclui a avó de Evelyn.

O rei Micanor sequestra neste dia 127 anciãos, 90 homens e 37 mulheres, e os leva para Nan Mangue. Ali, quando cai a noite e tudo fica escuro, seus homens os matam a tiros e facadas.
 
O hougan recolhe sangue dos sacrificados e guarda em recipientes, ao lado de partes dos seus corpos.

Na tradição vodu, esta é uma forma de conservar a essência, de ficar com alguém e escravizá-lo além das barreiras impostas pela morte. Usando os termos do vodu, aquele homem fica com as almas dos anciãos.

 A mobilidade também é difícil para nós, que estamos nesta espécie de fortaleza.

O falso rei e a impunidade
 
Micanor não é um rei, é apenas um homem que governa impunemente um pedaço de mundo em uma ilha no Caribe. Ele nem mesmo é o fundador da sua gangue.

Segundo uma pessoa que pertenceu ao grupo, Micanor era o terceiro em comando, um elemento muito violento e rápido no gatilho, ou facão. Por isso, nunca confiaram nele, pois sempre foi paranoico, influenciável e instável, segundo contam.

Em 2008, este senhor da miséria matou sua própria mambo (sacerdotisa vodu) para, segundo ele, obter seu poder. E, em 2012, acabou com 12 pessoas acusadas por ele de serem feiticeiros.

Os dois líderes que os antecederam morreram perto de 2015, nas guerras fratricidas das gangues da capital.

Elas disputavam entre si o controle dos espaços miseráveis da cidade e das pessoas pobres que moravam neles, antes da Viv Ansanm.

A tarde deste dia de abril de 2025 vai se apagando em Porto Príncipe e a Viv Ansanm ataca os extremos da fortaleza.

Faço a quinta entrevista da tarde. Ouvem-se tiros ao longe e, pela janela, pode-se ver colunas de fumaça subindo em direção ao céu.

A brigada fechará as ruas em breve para se proteger das multidões raivosas da grande confederação de bandidos.

Dustin fala devagar, usando gíria e com forte sotaque. É difícil entender o que ele fala.

Mas o homem está contando sobre a morte do seu tio e do seu primo e como ele precisou caminhar por mais de uma hora com a perna ferida e a mão destroçada para contar esta história. Por isso, não convém interrompê-lo.

Ao término das entrevistas, saímos correndo na moto do guia Ivander. Algumas barricadas já estão instaladas, mas conseguimos evitá-las.

A fortaleza põe à mostra seus espinhos e se prepara para sobreviver por mais uma noite.

As testemunhas do "massacre dos idosos", agora, dormirão aqui, pois não podem mais regressar para os seus lares. Amanhã, eles tentarão voltar sem serem assassinados ou capturados pela Viv Ansanm ou pelas brigadas de vigilantes.
 
Quase um ano e meio depois, quando escrevo esta reportagem, o massacre de Wharf Jérémie permanece impune, mesmo com todos os testemunhos e evidências que indicam o responsável pelo assassinato de 207 haitianos, em sua maioria anciãos: o autodenominado último monarca do Caribe, o senhor dos cais, um simples bandido chamado Monel Félix Altes.

Mò yo pa janm ale
Yo la toujou
Yo dòmi nan dlo
Yo mache nan rèv nou
(Os mortos nunca se vão.
Sempre estão aqui.
Dormem na água.
Caminham nos nossos sonhos.)

Canção tradicional fúnebre do vodu haitiano.

Os nomes dos sobreviventes foram alterados nesta reportagem por razões de segurança.

G1
0 Comentários
Feedbacks embutidos
Ver todos os comentários

Receba todas as noticias em seu WhatsApp

Comentários dos Leitores

Rafael Bezerra comentou
"E o que deu a explosão de Alcântara, onde morreram todos os 21 técnicos e cientistas do programa espacial Brasileiro? Ficou como simples acidente. Uma pena, na semana seguinte, estaríamos para lançar nossos satélites e competir com EUA, Rússia, China e Japão, em grande vantagem de economia de combustível."
Rafael Bezerra comentou
"Tamo mal, no quesito segurança."
Rafael Bezerra comentou
"Vixi! lá vem esses loucos negacionistas, de novo."
Socorro Benevides comentou
"VENDA ESSA PORCARIA"
Socorro Benevides comentou
"Quem está golpeando o país descaradamente é justamente quem ta julgando. Esse país é um cabaré"