
A demissão de Xabi Alonso do Real Madrid chama a atenção, mas não é exatamente uma surpresa. O técnico não conseguiu resolver a série de problemas que enfrentou desde o primeiro dia — o maior deles a chamada "gestão de vestiário" —, nem implementar as mudanças que pretendia. O desempenho do time ficou aquém do esperado, e os resultados não vieram.
Não houve paz duradoura nem no melhor momento do Real Madrid com Xabi Alonso, no início desta temporada, quando o time emplacou sete vitórias consecutivas, entre agosto e setembro. Ele chegou ao clube no fim de maio de 2025, para um contrato válido por três temporadas, mas acumulou desgastes rapidamente.
Gestão de vestiário ruim
Jogadores estranharam intervenções de Xabi Alonso na gestão do cotidiano do grupo — ainda mais se tratando de um ex-atleta do Real Madrid. Lançou novas medidas de caráter disciplinar e conduta, num elenco multicampeão de modus operandi respaldado por Carlo Ancelotti. Um exemplo foi a proibição do uso de celular em certos momentos.
Outra norma que chamou a atenção do vestiário foi a determinação para os jogadores voltarem com a delegação do clube no mesmo dia das partidas fora de casa. Antes isso não era obrigatório, e atletas aproveitavam o resto de dia ou noite na cidade em que estavam, e se apresentavam normalmente para o treino no dia seguinte. Isso interferiu na vida de quem visitava familiares, por exemplo.
Jogadores também discordavam das decisões de "campo", e Xabi não soube lidar da melhor maneira com isso. Os atritos de maior repercussão foram com Vinicius Junior, em especial a reclamação do brasileiro ao ser substituído no clássico contra o Barcelona, em La Liga. O atacante pediu desculpas, mas não mencionou o treinador.
Vinicius foi substituído em 20 dos 33 jogos (60%) com Alonso, desde a Copa do Mundo de Clubes até agora. Isso aconteceu em 19 das 52 partidas com Carlo Ancelotti na temporada passada (36,5%).
Na mesma semana da crise entre Vini Jr e Xabi Alonso, o ge trouxe detalhes de como o brasileiro não era o único insatisfeito. Boa parte do elenco não gostava da condução do dia a dia por parte do técnico e seus auxiliares. O zagueiro Rüdiger reclamou disso.
O volante Valverde expôs na entrevista coletiva antes do jogo contra o Kairat, pela Champions League, que "não nascera para jogar de lateral direito". Ele foi frequentemente improvisado por Xabi Alonso nessa posição. O meio-campista Camavinga disse que não era normal jogar fora de posição a longo prazo, em entrevista à Telefoot no mesmo mês.
O baixo aproveitamento de Rodrygo no time também rendeu críticas. Porém, apesar do interesse de outros grandes clubes da Europa, o atacante focou em recuperar o seu espaço, teve um "papo sincero" com o técnico e subiu de produção nos últimos meses. Rodrygo foi titular em 40 dos 54 jogos em 2024/25. Ele já igualou nesta temporada o número de partidas como reserva (14).
Vejamos o caso do atacante Mastantuono: chegou ao Real Madrid com 18 anos, emplacou 10 jogos como titular entre agosto e outubro, mas depois virou reserva pouco aproveitado, sem tantas explicações. O único jogador de linha talvez com status de "intocável" é o francês Mbappé, artilheiro do Campeonato Espanhol e da Champions League, com 29 gols em 25 jogos pelo Real nesta temporada.
O meia Bellingham afirmou na véspera da semifinal da Supercopa da Espanha que o "vestiário estava unido", comissão técnica e jogadores, apesar dos "altos e baixos". Pelo menos esse foi o discurso. Mbappé, Rodrygo e outros mandaram depois mensagens de despedida.
Bellingham também disse que qualquer decisão sobre Xabi Alonso não caberia a ele, e que no Real Madrid tudo ganha proporções exageradas quando as coisas não saem perfeitamente.
Pois bem, não saíram.