
As amostras de vírus que teriam sido furtadas do laboratório de virologia da Unicamp foram retiradas de uma área de nível 3 de biossegurança (NB-3), que exige protocolos rigorosos e é, atualmente, o nível mais alto possível para se estudar agentes infecciosos (como vírus e bactérias) em laboratórios no Brasil.
A informação consta no Termo de Audiência que deu liberdade provisória à professora doutora Soledad Palameta Miller, suspeita pelo desaparecimento do material biológico. A pesquisadora vai responder por expor a perigo a vida e saúde de outras pessoas, por transporte irregular de organismo geneticamente modificado e por fraude processual, de acordo com a Justiça Federal.
Classe de risco 3 é aquela em que o agente infeccioso apresenta alto risco para o indivíduo e risco moderado para a comunidade. São agentes que podem causar doenças graves ou letais, transmitidos especialmente pelo ar, e podem se espalhar na comunidade, embora existam medidas de prevenção e tratamento. Exemplos: Bacillus anthracis e vírus da imunodeficiência humana (HIV). O Orion, primeiro laboratório do Brasil com nível 4 (máximo) de biossegurança está em construção em Campinas, com previsão de ficar pronto em 2027.
Miller foi presa em flagrante nesta segunda-feira (23), depois que a Polícia Federal encontrou as amostras virais em laboratórios da universidade aos quais a professora conseguiu acesso com o consentimento de outros pesquisadores - veja os detalhes da ação abaixo. Na decisão judicial, o tipo de material - até então mantido em sigilo pelos órgãos públicos - é tratado como vírus.
A defesa da docente afirma que não há materialidade na acusação e que ela utilizava os laboratórios do Instituto de Biologia por não possuir estrutura própria.
Com a expedição do alvará de soltura, a professora responderá ao processo em liberdade, mas precisará cumprir regras determinadas pela Justiça:
A docente fica obrigada a comparecer mensalmente à 9ª Vara Federal, pagar uma fiança no valor de dois salários-mínimos, e está proibida de deixar a cidade de Campinas por mais de cinco dias e de sair do país sem autorização prévia.
Além disso, foi determinado que ela está proibida de acessar os laboratórios da Unicamp envolvidos na investigação
A Unicamp informou que instaurou uma sindicância interna para apurar o caso.
Cronologia dos fatos:
13 de fevereiro: amostras de vírus somem do laboratório de virologia do Instituto de Biologia da Unicamp
23 de março: após investigação, PF encontra material em laboratórios da Faculdade de Engenharia de Alimentos, onde Soledad atuava
23 de março: os laboratórios ficam interditados para cumprimento de mandados e a pesquisadora é presa
24 de março: Justiça concede liberdade e menciona em decisão que trata-se de vírus
Investigação
O início: A investigação começou quando uma pesquisadora autorizada notou, na manhã de 13 de fevereiro de 2026, o desaparecimento de caixas com amostras virais.
Local original: O material subtraído pertencia ao Laboratório de Virologia Animal e estava armazenado em uma área classificada como NB-3 (alta contenção biológica e rigorosos protocolos de biossegurança).
Tipificação penal: Soledad foi autuada em flagrante por três crimes: artigo 29 da Lei 11.105/2005 (produzir, armazenar ou transportar Organismos Geneticamente Modificados - OGM irregularmente), artigo 132 do Código Penal (perigo para a vida ou saúde de outrem) e artigo 347 do Código Penal (fraude processual).
O esquema e o risco envolvido
As investigações apontam que, como Soledad não possuía laboratório próprio nem acesso autorizado aos locais de segurança, ela usava a sua orientanda de mestrado para abrir as portas dos laboratórios para ela, inclusive em finais de semana.
A professora possuía o consentimento prévio de responsáveis por outros laboratórios para utilizar parte de seus freezers.
Riscos à Saúde: A movimentação e o armazenamento do material biológico sensível foram feitos em ambientes não controlados, segundo a apuração. Além disso, houve o descarte de material em lixeiras comuns, o que configurou exposição da saúde de terceiros a perigo direto e iminente, de acordo com o documento da Justiça.
Onde os materiais foram encontrados
A Polícia Federal localizou as amostras espalhadas em três locais diferentes:
Faculdade de Engenharia de Alimentos (FEA): foram encontradas diversas caixas com amostras dentro de tubetes em um freezer lacrado.
Laboratório de Doenças Tropicais (Instituto de Biologia): foram localizados tubetes manipulados e abertos no espaço reservado a Soledad dentro do freezer de outra professora. Próximo ao refrigerador, havia material descartado que provavelmente já havia passado por autoclave.
Laboratório de Cultura de Células (Instituto de Biologia): uma grande quantidade de frascos descartados foi localizada dentro de uma lixeira.
Quem é a pesquisadora
Segundo o portal do Docente e Pesquisador da Unicamp, Miller coordena, atualmente, o Laboratório de Virologia e Biotecnologia em Alimentos em linhas de pesquisa orientadas a vigilância epidemiológica e desenvolvimento de diagnósticos e terapias relacionadas aos vírus transmitidos por alimentos e água.
A pesquisadora atuou como analista no Laboratório Nacional de Biociências do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM) em projetos na área de engenharia de vetores virais, imunomodulação e anticorpos monoclonais dirigidos para terapia de câncer. Realizou pós-doutorado no Laboratório de Virologia da Unicamp em projetos relacionados ao desenvolvimento de vacinas vetorizadas, protótipos de testes rápidos para diagnóstico de doenças aviárias e estabelecimento de modelos alternativos para diagnóstico e produção de vacinas veterinárias.